Caçadores de Medula Óssea

O fim dos mitos sobre o Câncer

Posted on: 14/08/2010

Nos últimos vinte anos, a medicina venceu várias batalhas contra a doença e passou a entendê-la melhor. Com isso, os estigmas que cercam esse mal também estão sendo demolidos.

Fotos Lailson Santos
O ator Raul Cortez: depois do choque do diagnóstico, serenidade e confiança nas armas da medicina atual

No dia 10 de dezembro de 2004, uma notícia mudou o curso da vida do ator Raul Cortez. Internado às pressas depois de passar mal em casa, ele recebeu um diagnóstico assustador: estava com câncer no aparelho digestivo. Cortez teve de interromper sua participação na novela Senhora do Destino, então no ar, para submeter-se a uma cirurgia de extração do duodeno e de partes do estômago e do pâncreas. Atualmente, ele passa por um duro tratamento quimioterápico. “A doença cobra um preço alto. Mas eu sei que hoje a medicina tem armas para combatê-la. Isso me dá uma certa serenidade para atravessar esta fase”, diz. A experiência de Raul Cortez reflete de maneira exemplar o momento atual da luta contra o câncer no Brasil, onde se estima que mais de 450.000 casos sejam diagnosticados em 2005. A medicina tem obtido grandes avanços na compreensão da doença e no combate a ela. O câncer deixou de ser equiparado a uma sentença inapelável de morte e tornou-se um problema que, em muitos casos, pode ser controlado, dando ao portador uma sobrevida antes inimaginável e uma qualidade de vida bastante próxima daquela das pessoas que sofrem de doenças crônicas. Os progressos no campo científico se somam a novas atitudes culturais de médicos, grupos de apoio, parentes e dos próprios pacientes – que, via internet, podem obter informação atualizada e de qualidade sobre o mal que os aflige. O resultado é a pulverização de velhos estigmas em torno do câncer. A doença ainda é um desafio para a medicina, mas a vida dos doentes e de suas famílias tornou-se muito mais suportável com a compreensão mais precisa do que ela acarreta.

Duas décadas atrás, a ciência apenas tateava na compreensão do câncer. Isso mudou bastante. Falar da doença no singular é hoje, inclusive, uma imprecisão: segundo a Organização Mundial de Saúde, existem 804 tipos de câncer identificados e classificados. Diagnósticos mais precoces e precisos, remédios mais potentes e menos nocivos ao organismo, técnicas de extração dos tumores menos agressivas – todos esses avanços fizeram com que a sobrevida aumentasse (veja quadro). Atualmente, a taxa de pacientes com câncer de pulmão que não apresentam reincidência depois de cinco anos de tratamento é de 17% – um avanço de 70% em relação à década de 70. No câncer de próstata e de testículos, o índice de sobrevida se aproxima dos 100%. O diagnóstico precoce é a maior razão desses progressos. As taxas de acerto das máquinas de tomografia computadorizada mais avançadas já passam de 90%.

 
 

 

“Quando soube que estava com câncer na região anal, em 2001, fiquei abalada. Eu já havia vencido um tumor de pele, mas esse era bem mais grave. Vivia um momento especial da minha vida. Meus filhos tornavam-se adultos e eu estava amando de novo. Sentia-me feliz também com meu programa na televisão. Fiquei várias vezes internada, fiz 42 sessões de quimioterapia, que me debilitaram muito. Depois, entrei na radioterapia, e aí já não conseguia trabalhar. Meus filhos e meu então marido foram pessoas importantes nessas horas. Com a força deles, resolvi expor minha condição. Tem gente que diz ‘aquela coisa’, ‘aquela doença’. Se você não enfrenta seu inimigo, tem muito menos chance de vencê-lo. Câncer não é pecado. As pessoas devem se informar, pesquisar na internet, questionar os médicos. Têm de continuar trabalhando e não aceitar a pena alheia. O tempo para ser considerado curado é dez anos. Já estou quase na metade da história. Quem enfrenta uma doença com possibilidade de morte sempre sai transformado da experiência. Em alguns sentidos, a vida fica até melhor depois de vencer um desafio como esse.”
Ana Maria Braga,
apresentadora de televisão

Campanhas de prevenção também são um fator na melhora das estatísticas. Nos anos 70, o número de diagnósticos de câncer de mama era dez vezes menor do que hoje. No entanto, as taxas recentes de sobrevida são maiores do que naquela época. Isso porque, graças à difusão de informações e da prática do auto-exame, pode-se diagnosticar um nódulo em estágio inicial. Outra evolução foi o desenvolvimento de drogas mais potentes. Novas classes de remédios, como os anticorpos monoclonais, têm a capacidade de detectar as células do tumor e agir especificamente sobre elas. Com isso, os efeitos adversos diminuíram – muito embora ainda sejam consideráveis. Firmou-se a consciência de que é preciso rigor máximo nos tratamentos, algo que nem sempre ficava evidente num período anterior, em que o nível de especialização dos médicos não era tão elevado. “Garantir o controle da doença, mesmo nos casos em que aparentemente não há cura, é o melhor procedimento”, afirma o oncologista Císio Brandão, do Hospital do Câncer A.C. Camargo, em São Paulo. “Novos medicamentos surgem a todo momento, e esses pacientes devem estar prontos para se beneficiar deles.”

As vitórias da medicina sobre o câncer permitiram que alguns mitos se desfizessem. A mais célebre estudiosa desses mitos foi a ensaísta americana Susan Sontag. Em 1978, depois de descobrir que tinha um câncer no seio, ela publicou um texto de enorme impacto intitulado A Doença Como Metáfora. “Enquanto essa doença particular for tratada como um predador maligno, invencível, e não apenas como um mal físico, a maioria das pessoas com câncer se sentirá deprimida ao descobrir qual é a sua doença. A solução não é sonegar a verdade dos pacientes, mas retificar as concepções sobre a doença, desmistificá-la”, escreveu ela. Susan curou-se do primeiro tumor, mas no fim dos anos 90 foi apanhada novamente pela doença, que acabou por matá-la em 2004. Pouco antes de sua morte, numa entrevista a VEJA, ela afirmou que se sentia aliviada ao perceber que, no intervalo entre seus dois diagnósticos, as atitudes irracionais em relação ao câncer haviam diminuído. Sontag resumiu admiravelmente os avanços percebidos por ela: “Há mais franqueza no ar, mais informação circulando entre os leigos, menos medo de tratamentos efetivos como a quimioterapia e mais ceticismo em relação a tratamentos sem eficácia como as dietas”.

“Em setembro do ano passado, ligaram da escola de minha filha Julia, então com 7 anos, dizendo que ela não estava bem. Fazia um mês que Julia aparecia com marcas roxas pelo corpo – bastava esbarrar em alguém para ficar assim. Eu e meu marido a levamos ao hospital. O diagnóstico foi leucemia. Na hora, vem o clichê: o chão se abriu sob meus pés. Vi minha filha vulnerável, como se alienígenas estivessem tomando o corpo dela. Depois de 24 horas prostrada, tomei uma decisão. Iríamos viver um dia de cada vez. Eu estou aqui agora com a Julia, não sei de amanhã nem do ano que vem. Tenho de ser verdadeira com ela. A gente nunca tentou dourar a pílula. Nem fazer previsões boas ou ruins. No hospital em que ela está se tratando, os médicos também falam sobre o momento, não criam expectativa. A Julia é curiosa e está aprendendo tudo sobre a doença. Outro dia, disse à minha mãe: “Estou com 300 000 plaquetas, vó”. Hoje ela toma alguns comprimidos e vai ao hospital tomar injeção todas as terças. Está em remissão, já não se detectam as células leucêmicas. Remissão não é cura, mas ela está bem.”
Soninha Francine,
vereadora paulistana (PT) e apresentadora de televisão

Um dos estigmas que vieram abaixo foi aquele que igualava o câncer à morte certa. Em segundo lugar, a doença perdeu muito do caráter de mal inescrutável. Falar de câncer já foi um tabu social. Empregavam-se eufemismos para evitar a palavra. Era comum também esconder dos portadores a sua verdadeira condição – em geral, era aos familiares que o médico solenemente confidenciava a verdade sobre o paciente. “Mente-se para pacientes de câncer não apenas porque a doença é (ou considera-se que seja) uma sentença de morte, mas porque é percebida como obscena – no sentido original dessa palavra: agourenta, abominável, repugnante”, escreveu Susan Sontag.

“Câncer” deixou de ser palavrão. O termo é pronunciado abertamente em público e figura em camisetas e acessórios que viraram moda, como aqueles com o logotipo da campanha contra o câncer de mama. Outro exemplo é a pulseira que o ciclista Lance Armstrong, sobrevivente de um câncer nos testículos – que no caso dele se complicou com metástases nos pulmões e no cérebro –, lançou para angariar fundos para pesquisas sobre a doença, em parceria com a Nike. Em um ano, mais de 46 milhões de pulseiras já foram vendidas no mundo todo. Depois de tratado, Lance voltou a competir e venceu seis vezes a prova mais desafiadora de sua modalidade esportiva, a Volta da França, da qual é o maior campeão de todos os tempos.

No ano passado, quando a vereadora paulistana e apresentadora de televisão Soninha Francine teve a notícia de que sua filha caçula, Julia, de 8 anos, sofria de um tipo raro de leucemia, fez questão de tratar do problema sem meias palavras. “Cheguei a brigar com meu marido porque ele disse a um amigo que nossa filha estava com uma ‘doença chata'”, afirma. Não é só o nome que não tem mais de ser evitado. Hoje, a grande maioria dos doentes considera um direito seu saber com todas as letras do que sofre. “Quando não recebem informação adequada, eles se sentem traídos e às vezes até abandonam o tratamento”, diz Císio Brandão.

Dois outros estigmas foram derrubados, mas ainda resistem em certos círculos: o de que o câncer tem raízes psicológicas, em geral ligadas à repressão de sentimentos, e o de que a manifestação da doença é uma espécie de punição. A primeira idéia foi popularizada pelo psicólogo austríaco Wilhelm Reich (1897-1957), segundo o qual o câncer era “a doença que se segue à resignação emocional, uma desistência da esperança”. Essa concepção de uma origem psicológica do câncer foi desacreditada pela ciência. Hoje em dia, quando os psicólogos insistem na importância de uma atitude reativa em relação à doença e grupos como os Doutores da Alegria são admitidos em hospitais para levantar o astral dos pacientes, é menos por acreditar que isso tenha uma influência direta sobre a cura do que por saber que essa atitude ajuda a reforçar o ânimo para enfrentar um tratamento longo e sofrido. A crença de que a doença é uma forma de punição, no entanto, está muito enraizada na história cultural da humanidade. É possível encontrar esse conceito já em poemas da Antiguidade grega, como a Odisséia, a narração de Homero escrita quase 900 anos antes da era cristã. O próprio cristianismo cuidou de reforçar a idéia de que certas atitudes mentais produzem doenças graves. As terapias de apoio contemporâneas procuram desfazer esse tipo de associação. “Ter câncer não é pecado”, diz a apresentadora Ana Maria Braga, que enfrentou dois diagnósticos e submeteu-se a dois tratamentos bem-sucedidos, o primeiro de pele, em 1991, e o segundo na região anal, em 2001.

Paulo Liebert/AE

“O diagnóstico do câncer é impactante. Mas é importante não se entregar a esse momento, e canalizar energias para o duro combate à doença. No meu caso – tive um câncer no testículo em 1998 e outro no estômago, em 2002 –, o fato de ter uma família sólida me fez sentir amparado. No tratamento, é preciso ter disciplina e seguir os procedimentos indicados pelos médicos. Essa crise nos oferece a oportunidade de lidar melhor com nossas fragilidades e compreender que não temos controle sobre os ritmos e os prazos da vida. É natural que os exames sejam precedidos de muita ansiedade. E a notícia da superação? A sensação, ao receber a informação de que o problema está sob controle, é a mesma de receber uma mensagem de boas-vindas, de ter sido contemplado com mais uma possibilidade de vida.”
Luiz Gushiken,
ministro da Secretaria de Comunicação

Talvez não haja símbolo mais evidente da maneira como o câncer é enfrentado socialmente hoje em dia do que a cabeça raspada das pessoas que se submetem à quimioterapia. É um emblema ainda, mas nem de longe tão negativo quanto os de outros tempos. A cena em que a personagem vivida pela atriz Carolina Dieckmann perde o cabelo na novela Laços de Família (2000), depois de descobrir que tem leucemia, foi um momento marcante da televisão brasileira nos últimos anos. A atriz veterana Glória Menezes também se desfez das madeixas para interpretar uma doente na peça Jornada de um Poema. Entre as doentes reais, a apresentadora Ana Maria Braga foi pioneira ao ostentar a careca na televisão como símbolo de uma luta pessoal. “Eu tinha duas opções: esconder-me de meu público ou assumir o que estava passando. Expor a falta de cabelo foi minha forma de enfrentar o problema”, diz ela. A vereadora Soninha passou pela situação delicada de explicar à filha por que as demais crianças da clínica onde ela se tratava estavam carecas – e informar-lhe que ela também ficaria assim. “A Julia ficou preocupada com o que os amiguinhos de escola iam dizer. No fim, encontramos um jeito leve de tratar do assunto. Eu disse: ‘Olha, Julia, é como a gripe carecal das histórias do Cebolinha, só que aqui vocês tomam um remédio que faz o cabelo cair'”, conta.

A compreensão da doença e o fim dos mitos tiraram um peso adicional dos ombros dos doentes. Obviamente, isso não significa que o impacto de descobrir que se tem um câncer seja assimilado igualmente por todos. Como toda doença grave que nasce e cresce em silêncio, o câncer é um lembrete esmagador de nossa mortalidade. Dá-se o que os especialistas chamam de “elaboração do próprio luto”. “Com uma notícia dessas, a morte deixa de ser um evento abstrato e se transforma numa possibilidade concreta”, diz a psicóloga Maria Júlia Kovács, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte da Universidade de São Paulo. Uma experiência desse tipo é tão perturbadora que não se deve roubar do paciente o direito de sofrer com sua condição. Os médicos relatam que são comuns os casos de pessoas que escondem a própria angústia numa tentativa heróica de poupar as pessoas próximas. Parentes e amigos dos doentes também sentem medo da morte e do sofrimento que o câncer pode causar. Eles também vivem a elaboração antecipada do luto do outro. “Quem está ao lado de um doente de câncer também precisa de apoio, até para poder ajudá-lo de maneira mais eficaz”, diz Maria Goretti Sales Maciel, coordenadora do Programa de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo.

Pessoas saudáveis ou aquelas que nunca conviveram com um doente grave tendem a subestimar o poder desestabilizador de um mal como o câncer. A doença revoluciona toda a vivência do cotidiano. Ajudar os doentes e seus familiares a reestruturar o dia-a-dia é a tarefa de novas disciplinas como a medicina paliativa. A especialidade ainda não é reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina, mas programas desse tipo são oferecidos nas principais instituições que trabalham com pacientes de câncer no país. Suas equipes são compostas de médicos, enfermeiros e psicólogos, que atendem os doentes nos hospitais e em casa. Muitos dos conselhos e regras simples empregados por quem atua nessa área têm o sabor de platitudes, mas a doença grave é justamente um desses momentos em que o senso comum se desfaz – e as pessoas precisam ser trazidas de volta a ele. Entre as orientações dirigidas aos familiares e amigos está, por exemplo, a de respeitar a intimidade do doente (veja quadro). Entre aquelas dirigidas ao paciente está a de não abandonar os planos, mesmo que sejam somente para o dia seguinte. Casos como os de Ana Maria Braga, Luiz Gushiken e Raul Cortez, no entanto, mostram que se pode ambicionar mais do que isso. Diz Ana Maria: “É possível sobreviver ao câncer. Em alguns sentidos, a vida fica até melhor depois de vencer um desafio como esse”.

 Fonte: Revista Veja. Todos os direito reservados à revista Veja.

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